Escolhas...

Blog de yolandasa :Minhas Histórias Vividas!, Escolhas...

Em São Paulo a correria é constante. Valquiria chegou em casa estafada. Enfermeira, dera um plantão noturno na UTI do hospital, substituindo férias, seu horário normal é de dia, mas algum dinheiro extra sempre cai bem. Depois do serviço, acompanhara sua mãe, viúva ao médico e só agora, na hora do almoço entrou em seu apartamento. Trabalhara muito na vida, ela e toda a família. Desde os 13 anos, já trabalhara de doméstica, babá, vendedora, em balcão de lanchonete, auxiliar de enfermagem, guardando cada centavo para pagar os estudos, até completar a faculdade. Depois, de dia em hospital, a noite acompanhando senhoras em casas, para poder ter “seu canto”. Finalmente estava tudo pago. Aos 34 anos era uma excelente profissional. Seus três irmãos conseguiram da mesma forma, com muito esforço. Já morava ali há cinco anos e há dois, estava livre de dívidas. Agora guardava para viagens de férias. Olhou pela janela, pensando em fechar a cortina da sala para dormir e do outro lado da rua, viu alguém nua, com a janela do quarto aberta, exatamente na direção de sua sala. Nunca vira ninguém ali antes, talvez por seus horários.
Marina, desde que se formara em Direito, trabalhava com o pai, advogado conceituado, conhecido e caro. Especializara-se em Direito Trabalhista. Ganhara já vários casos, era bem conhecida no meio e o pai gostava de tê-la trabalhando com ele. Aos 32 anos, podia-se dizer que escolhera o caminho certo. Quando se formara, os pais prometeram-lhe um apartamento, mas seguraram-na ao máximo em casa e finalmente há cerca de três anos, morava em seu próprio lar, embora já viesse embalado, isto é, ganhara-o já mobiliado e decorado. Sempre pensava em mudá-lo, mas vivia adiando para não magoar a mãe. Naquele dia houve um incidente. O neto do sócio do pai, viera ao escritório visitá-lo e em uma curva nos corredores entre as salas, trombara em suas pernas, sujando e manchando sua roupa com o lanche que segurava, um festival de maionese, ketchup e mostarda. Como tinha audiência às 16h00min, aproveitara a hora do almoço para vir se trocar e como estava calor, também para um banho, mas na pressa esqueceu-se da janela; normalmente só estaria em casa naquele horário em finais de semanas. Quando saía pela manhã, deixava as janelas abertas e quando chegava, quase noite, fechava-as. Afinal morava no 7º andar. Escolhia a roupa que ia usar, quando percebeu, aí colocou de imediato o roupão e foi fechar a janela.
Do outro lado Valquiria percebeu que não era exibicionismo, mas distração e pensou se alguém mais teria visto. Foi dormir.
Apesar de seu sucesso, Marina não era feliz. Às vezes achava-se ingrata com o destino. Gostava do que fazia e fazia-o bem. Tinha um belo namorado, tivera outros antes dele, mas nunca se empolgara muito. Não era puritana, nem virgem, mas não sentira aquilo que as pessoas falam do sexo, não se sentira completa e isto a levara a não ser exatamente alguém doida por transas. As poucas vezes que fizera sexo, mais por pressão e para tentar se sentir “normal”, do que propriamente por vontade, sentira-se frustrada quando o parceiro terminava e ela ainda estava a caminho. Começava a acreditar que era frígida ou só conseguiria ser feliz na cama, quando amasse a pessoa que ali estivesse. Justo naquele dia, Marcelo, seu namorado, resolveu “pegar no seu pé” e viera com ela pra casa. Não gostava de trazê-los pra casa. Sentia-se invadida.
Ora meu bem, não é por aí. Estamos namorando há oito meses, você não me traz a sua casa, não quer transar como todo mundo, não liga pra mim, não demonstra o menor ciúme ou interesse...
- Tá Marcelo. Desculpe. Só um minuto, vou trocar os sapatos e já volto.
- Está vendo? Vai trocar sapatos quando estou falando sério.
- Olhe, já tive o dia cheio hoje, com três audiências. Só estou pedindo um minuto.
Ela foi para o quarto e ele acompanhou. Ficou irritadíssima quando o viu em seu quarto.
- Já estou colocando os chinelos, está vendo? Por favor, me espera na sala.
- Qual o problema eu estar no seu quarto? Sou teu namorado!         
A janela!... O pensamento passou pela sua cabeça. Desde o dia ... Quando fora mesmo ... Dez dias passado que se vira nua frente a janela, sempre que entrava em casa, era a primeira coisa que fazia agora, fechá-la.
- Não por muito tempo.
- O quê?
Fechou a janela. Do outro lado, Valquiria estava de folga e fora fechar as cortinas da sala, já que resolvera ver um pouco de televisão, percebeu que a vizinha estava irritada. Foi ver o telejornal.
- O que, o quê?
- O que você disse?
- Não por muito tempo.
- Você é irritante, sabia? Não demonstra nenhum respeito pelas pessoas e quando a gente exige isso, simplesmente dispensa.
- Eu respeito as pessoas sim. Porisso nunca te menti, não te “cantei”, não disse que te amo, nada dessas coisas. Não está funcionando, eu continuo gostando mais da minha privacidade que das tuas invasões. Procure alguém mais “normal” e seja feliz. Boa noite.
Enquanto dizia isso, andara até a porta e a abrira, ficando de pé ao lado, esperando ele sair. Marcelo queria estrangulá-la, mas fungando saiu. Ela trancou a porta e foi tomar banho.
No dia seguinte, assim que entrou em sua sala para trabalhar, foi avisada.
- Sua mãe ligou. É pra ligar pra ela assim que chegar.
Fechou os olhos e segurou a cabeça. Vai ser um dia longo, pensou.
- Oi mãe.
- Menina, o que aconteceu? Por que acabou com Marcelo?  Ele é uma ótima pessoa, de excelente família, amigo nosso, bonito e gosta de você. Como pode?
- O que ele é, é um fofoqueiro. Ligou ontem mesmo pra você.
- Ligou porque sabe que o namoro é de nosso agrado e...
- É do seu agrado, mas não é do meu, mãe. Ele é tremendamente chato, quer ficar grudado e eu gosto de espaço. Preste atenção, mãe. EU NÃO GOSTO DELE. Desculpe, mas tenho que trabalhar.
- Você vai se arrepender, filha. Pense bem, antes que ele arrume outra mais esperta que você.
Desligou pensando “tomara que já tenha arrumado”.
No sábado, acordou cedo e resolveu ir à padaria comprar pão e alguma coisa para um sanduíche, embora não tivesse tal hábito. Na rua, o cheiro de pão quente tomava conta do ar. Estava contente. Sentia-se livre. Havia uma pequena fila. O pessoal chamava os balconistas por nome, conversavam entre si. Aquilo lhe fez bem.
- Oi!
Virou-se para quem a cumprimentara. Era uma mulher bonita, com olhos negros e sorridentes. Exalava simpatia.
- Oi!
- Está estranhando? Desculpe perguntar, mas nunca a vi aqui antes e olha à sua volta como uma criança que estivesse entrando pela primeira vez em um local assim.
- Dá pra notar é? Não, é que tenho pouco tempo, compro tudo no mercado e hoje me deu vontade de um sanduíche com pão fresco.
- É nova no bairro?
- Já moro ali (apontou), há três anos, só nunca tinha vindo à padaria.
- Já que quer ser diferente hoje, eu te pago o café. Pão quentinho não é bom pra sanduíche. Leve tudo para mais tarde, mas agora vem cá.
Acompanhou-a sentaram-se em bancos altos no outro balcão e ela pediu.
- Bom dia Bigode! Dois pães quentinhos com pouca manteiga e dois chocolates quentes. Com açúcar ou adoçante?
- Pode ser açúcar.
- Taí da saúde!
- Obrigada Bigode.
- Da saúde?
- Sou enfermeira. Também sou sua vizinha. Como moro em frente (apontou), pensei que tivesse se mudado há pouco tempo, porque só a vi há poucos dias atrás.
- Só estou em casa à noite e às vezes, final de semana. Sempre toma café aqui?
- Não, só às vezes. Na verdade, só ia comprar pão, mas resolvi te mostrar o melhor jeito de comer pão quente. Na minha opinião, é claro.
- Parece um pouco cansada.
- Tirei plantão noturno. Ainda tenho mais esta semana agora à noite. Daí volto pro dia.
Conversaram amenidades e se despediram.
Passada a semana, no domingo às 10h30min tocou a campainha no apartamento de Marina. Foi atender.
- Valquiria! Oi! Entre.
- Não obrigada. Desculpe incomodá-la, mas tem um evento na praça hoje e como você mora aqui, queria saber se não quer ir. Leve um pouco de dinheiro. É beneficente. Se quiser ir, é claro.
- O que é?
- Tem música, dança, bingo, é meio quermesse.
- Espere. Entre, sente-se que vou me trocar e desço com você.
Eram coisas simples, mas divertidas. Passou alegremente o dia.
- Faz exercícios?
- Faço na academia aqui perto.
- Também faço lá. Com o tanto de porcaria que comemos hoje, aconselho-a a caprichar nos aeróbicos esta semana.
- Quais os dias que você freqüenta?
- 2ª, 4ª e 6ª. E você?
- Não tenho muito ânimo em ir sozinha. Deveria ir também três vezes por semana, mas tenho ido quando estou disposta. Acho que vou começar a ir no seu horário, aí vou ter companhia.
- Tá bom. Eu vou às 19h30min.
- Porisso não te encontrava. Eu ia mais cedo.
Começaram a freqüentar juntas a academia e Marina achou que tinha uma nova amiga. Portanto, quando resolveu ir ao teatro ver uma peça que queria, comprou um ingresso a mais. Na 6ª feira, quando estavam de saída da academia, fez o convite.
- Valquiria, amanhã vou ver aquela peça que a gente comentou e queria saber se pode ir comigo?
- Você tem muitos amigos?
- Alguns. Por quê?
- Talvez seja melhor convidar outra pessoa. Não sou a melhor companhia para você.
- Pensei que a gente se dava bem, que fossemos amigas.
- Venha até em casa, por favor.
Entraram.
- Sente-se, por favor. Aquela é a janela que dá pro teu quarto. A primeira vez que eu a vi, você estava nua bem em frente. Cheguei a pensar se alguém mais a vira, mas devido a hora, eu duvido. Normalmente os apartamentos estão vazios naquele horário. A segunda vez, você discutia com alguém.
- Justamente as duas únicas vezes que aconteceu alguma coisa de janela aberta, você tinha que ver?
- Não foi proposital, posso te garantir.
- Sei que não.
- Quando falei com você na padaria, não sabia que estava lá até ter entrado. Queria saber a cor dos teus olhos.
- E qual é? (fechou os olhos)
- Mel.
- E por isso você não quer ir ao teatro comigo?
- Não. É que já faz algum tempo que vivo só, você é uma mulher agradável, inteligente e muito bonita e eu sou homossexual. Por isso tudo, não sou a melhor companhia pra você.
- Tenho amigos homossexuais!
- Estão sós?
- Não, mas gosto de você e só queria ir ao teatro. Qual o problema?
- Tá bom.
- Amanhã às 18h00min a gente se encontra. Vamos jantar calmamente e depois teatro. Anote meu telefone e me dê o seu pra eventualidade.
Daí pra frente, sempre que o trabalho de Valquiria permitia, saiam juntas pra shows, cinemas, teatros ou só para andar um pouco. Até que um final de semana, sete meses depois daquela conversa, Marina convidou-a a ir pra praia.
- Não obrigada.
Marina a havia chamado a seu apartamento Valquiria estava sentada e ela a sua frente em pé.
- Por que não? É só um final de semana, me deu vontade e todo mundo tá ocupado, ou viajando. Não tem graça ir sozinha.
Valquiria suspirou, colocou o cotovelo no braço da poltrona e o dorso da mão na boca e apenas olhava para Marina. A blusa justa de Marina erguia seus seios e o decote, mostrava-os sensualmente. Insistiu.
- Por quê?
Valquiria levantou-se de repente, colocou as mãos na cintura de Marina, o rosto em seu colo, aspirou com suavidade seu cheiro e delicadamente beijou a pele de um e do outro seio.
- Porisso. Desculpe. Adeus.
Saiu. Marina ficou estática, com os pelos das costas e pescoço arrepiados, sentindo a ternura do ato. Sem ação. Alguns minutos depois, correu para o quarto para verificar pela janela se Valquiria já chegara. Esperou. Assim que ela entrou, telefonou.
- Alô!
- Sou eu.
- Desculpe. Tá muito difícil pra mim. Te preveni, não foi?
- Ainda quero ir com você
- Tá muito doído, não quero sofrer mais que isso não.
- Por favor. Eu não entendo determinadas coisas muito bem, mas neste exato momento, não sei por que, preciso estar com você. Posso ir aí?
- Se quiser.
Foi o mais rápido que pode.
- O que você quer Marina?
- Não sei. Sensações. Algo que nunca senti. Preciso saber.
- Não posso te ajudar.
- É a única que pode.
- Tua mãe não aceitaria. Você não aceita.
- Como não! Já te disse que tenho amigos...
- Amigos, não pra você. Vá embora, por favor.
- Não estou dizendo que quero um caso com você.
- Quer experimentar. É isso?
- Não vou mentir. Talvez seja.
Despiu-se devagar, sem pensar no que fazia, sentindo o olhar de Valquiria queimando sua pele inteira. Aproximou-se. Valquiria permaneceu imóvel. Com mãos trêmulas, começou a despi-la. Encostou-se no seu corpo, tentou beijá-la, ela virou ligeiramente o rosto. Segurou-o com as duas mãos e suavemente virou-o de volta. Beijaram-se. Sentiu-se enlaçada; mãos em suas costas, descendo até as nádegas, apertando-a e subindo até o pescoço. Afastado o corpo, as mesmas mãos seguraram seus seios, espremeram, acariciaram, brincaram com os mamilos, então os lábios se desprenderam dos seus e percorreram o caminho das mãos e as mãos tomaram outros caminhos, às vezes com força, às vezes com suavidade e a boca invejosa e ciumenta percorria seu traçado. Em troca outras mãos tocavam o corpo das mãos andarilhas, com estranho êxtase, extrema curiosidade, um pouco desajeitadas, inexperientes, mas ávidas, atrapalhadas por um corpo fremente que se desmanchava perdendo qualquer controle. Manuseado até sua profundidade que clamava por elas, retribuiu abrindo suas comportas, terminando com a seca, há tanto instalada.
Estavam no sofá, não está muito duro. Estavam no tapete. Marina pensava, tentando recuperar o controle do corpo. Estava meio no tapete, meio ... Sobre Valquiria. Isto dificultava a reação de seu corpo, aquela metade sobre o outro corpo. Esforçou-se para separar o toque. Foi ajudada.
- Você está bem?
- Hum, hum.
Bom, agora já sabia o que era se “sentir completa” no sexo, mas será que era isso? Ela era diferente? Tinha que ser com ... Uma mulher? Não quis pensar mais nisso. Não agora. Abriu os olhos. Valquiria olhava-a preocupada. Voltou a perguntar.
- Você está bem? Te machuquei?
- Não, eu estou bem. Posso ficar aqui um pouco?
- Em casa pode, mas não no chão. Venha pra cama.
- Valquiria ajudou-a, levantou-se, deitou na cama, ainda sentindo-se bamba. Gemeu e dormiu.
Acordou de madrugada. Tinha um abajur aceso, o que indicava que Valquiria se preocupara. Sentou-se na cama e ficou olhando-a teve vontades estranhas, mas ficou quieta para não acordá-la. Ela se virou, dormindo, e um seio ficou à mostra. Marina ia cobri-la, mas aquelas vontades estranhas estavam presentes. Acariciou-lhe o rosto e este demonstrou um meio sorriso. Descendo a mão pelo pescoço, acariciando toda a extensão até tocar-lhe o seio. Aquele corpo dormente reagia, mexia sensualmente, provocava. Puxou a coberta, deixando-o totalmente a vista, encostou-se nele, deslizou por ele, tocou com o corpo, com as mãos e boca cada parte que se contorcia, menos o rosto. Observava-o. As mudanças de expressão; parecia que sonhava e a boca gemia acompanhando o sonho. Quando passou a língua pelo monte de Vênus, um relampejo passou-lhe pela mente, nunca pensara em fazer nada disso, mas continuou descendo e ao sentir e ver quão molhado estava, parou de pensar e agiu. Quando parte de sua mão entrou, seguindo a trilha da língua, o corpo acordou e seguiu seu ritmo. Nunca impusera um ritmo antes. Adorou aquilo e mais ainda, quando soube que aquele corpo chegava ao clímax, com ela. Terminando o gozo uma mão daquele corpo, procurava o outro para terminarem juntas. Sorriu e murmurou.
- Não precisa, não agora!
Não precisava mesmo. Olhava o resultado de suas carícias e reagia da mesma forma. Descobriu que o que fizera falta até então, era o sentimento para chegar à emoção maior. Deitou-se sobre Valquiria. Esta abraçou-a.
Acordou, olhou o relógio no criado-mudo. 06h00min. O primeiro pensamento foi terrível. “O que eu fiz, o que aconteceu? Como vou explicar pra minha família? Que sou anormal?” Ficou apavorada com seus próprios sentimentos. Levantou-se sem fazer barulho, cobriu Valquiria evitando olha-la, vestiu-se e saiu. Trancou a porta e passou a chave por baixo. Entrou em sua casa, foi direto para o chuveiro. Tomou um banho prolongado, mas seu corpo parecia marcado pra sempre. Quando se ensaboava, sentia a sensação de outra mão e viu-se masturbando, sentindo a outra. Apressou-se, vestiu-se e saiu.
Tocou a campainha várias vezes. A porta foi aberta finalmente.
- Que foi? Entre. Estourou a guerra ou o quê? Pra me tirar da cama de madrugada, no meu dia de folga?
- Desculpe Simone. É que estou desesperada. Podemos conversar?
- Claro, mas deixa eu acordar primeiro. Vou tomar um banho, vai fazendo café.
- Que aconteceu? Quem era?
- Era não. É Marina.
- Oi Claudia. Desculpe por tê-las acordado.
- Você está bem?
- Não. Mas vai passar. Quanto de pó?
Fez o café. Claudia arrumou a mesa.
- Pronto. To acordada. Enquanto tomamos café, pode começar a falar.
- Talvez ela não queira que eu ouça.
- Pode ouvir sim. De qualquer forma ela iria te contar depois.
- Vai Marina, desembucha. E nada de linguajar de tribunal, por favor, me cansa.
- Você se lembra daquela minha amiga, que também é minha vizinha?
- Ah! A sapata por quem você tem uma queda...
- Si, não fale assim.
- Não ligue Marina, você a conhece.
Contou o ocorrido, sem detalhes íntimos, é claro.
- E você gozou e gostou. Este é o problema?
- Por que escolhi você pra conversar sobre isto?
- Porque somos o único casal gay de suas relações. As bichas que você conhece são fofoqueiras.
Claudia ria.
- Marina, o importante é como você se sentiu, qual o sentimento que rolou. Foi forçado ou natural? Só que Si gosta de resumir.
- Foi natural, com muita emoção. Acho que foram meus primeiros orgasmos na vida, mas...
- Foi com ela e não com o futuro marido perfeito.
- É. Já vi mulheres nuas e não me diziam nada, não sentia nada, mas olhar pra ela, passa umas idéias absurdas pela cabeça.
- Por que absurda? A gente ama alguém, o gênero que esse alguém pertence, é detalhe.
- Detalhe? Você acha que minha família vai concordar?
- O problema não é tua família, menina. Ela tinha razão, quando disse que você não aceitava. Só não aconteceu nada antes, porque ela respeitou teus medos. Porisso ela pediu pra você sair e esquecê-la. Se ao invés dela, fosse um homem que tua mãe detestasse, por não ser da mesma classe social, você a enfrentaria? Porque é só tua mãe, o resto da família não se incomodaria se for uma pessoa decente. E pelo que tenho ouvido, ela é das mais decentes.
- É a mais gentil, a mais decente, a mais amiga e eu...
- Diga
- Diz Marina.
- É absurdo. Por que tinha que ser assim?
- Você recebe na tua vida alguém desse quilate e ainda reclama? Você foi criadinha pela mamãe, pra encontrar o príncipe encantado, ter muitos filhinhos e ter um porre de vida. Bom, bem-vinda a vida real, com alguém que pode te fazer bem mais feliz e você não consegue dizer que a ama.
- Não percebeu nada antes Marina? Nenhum indício desde que começou a encontrá-la direto e não ir a lugar nenhum se ela não pudesse ir, ou nas raras vezes que saiu com outros amigos, sentir tremendamente a falta dela?
- Eu não queria que fosse assim.
- Você não queria ver que é assim. O que pretende fazer agora?
- Marina, não temos a resposta pra você. Você tem que decidir sua vida, sua felicidade. Pra nós é diferente, nos amamos e não somos bitoladas, preconceituosas, nem temos famílias tradicionais, centenárias.
- Posso ficar aqui?
- Tá fugindo dela?
- Si, por favor. O tempo que quiser. Não pretendíamos fazer nada hoje.
Passou o dia com as amigas.
Valquiria estava preocupada. Ligou para o celular, direto caixa Postal. Marina deixara-o em casa, desligado. Assim que retornou, Valquiria viu pela janela e foi falar com ela. Marina abriu a porta, mas não olhou para ela.
- Está tudo bem com você?
- Humm.. (balançou a cabeça).
- Onde você esteve? Fiquei preocupada e ...
- O fato de termos transado, não lhe dá o direito de me controlar, não acha?
- Acho. Desculpe, não está mais aqui quem falou.
Virou-se e saiu. Marina teve vontade de chorar, de se estapear. Correu para alcançá-la, não conseguiu. Voltou, fechou a casa e foi atrás dela. Bateu na porta. Valquiria a abriu e não esperou que entrasse, deu-lhe as costas e foi para o sofá. Entrou, fechou a porta, respirou fundo e se virou.
- Desculpe. Foi uma atitude horrível. Estive na casa de Simone e Claudia. Estava me sentindo perdida, precisava conversar com alguém... Com...
- Com alguém do meio?
- É
- Disseram alguma coisa diferente do que eu te disse?
- Não.
- Então fugiu de mim, o dia todo. Não podia nem ligar e dizer que estava bem e que tinha saído, ou deixado um bilhete?
- Me perdoa e ... Me ajude.
- Eu sou a ultima pessoa no mundo que pode ajudá-la, sou a maior interessada, se lembra? Não vou incomodá-la novamente, não se preocupe. Tem todo o tempo que quiser pra pensar e resolver sua vida.
- Não vou mais te ver? Por quê?
- Eu te pedi pra não ultrapassar o limite imposto, você ultrapassou e pelo que senti, não foi por simples curiosidade, mas você provou que eu estava certa, você não aceita e se eu receber outra resposta, como a que você me deu há pouco, não vai prestar. Embora não gostasse de alguns amigos teus, que te abraçavam e ficavam com a mão no teu ombro ou cintura, enquanto falavam, jamais disse nada. Eu até me afastava quando nós encontrávamos qualquer amigo teu. Eu não mereço e não admito e não sou obrigada a ouvir o que ouvi hoje. Quando você se resolver, conversaremos.
- Não posso resolver sozinha. Eu preciso da tua companhia.
- Amanhã a gente se vê na academia. Não (Marina tentara abraça-la). Por favor, vá embora.
- Me desculpe.
Marina não dormiu quase. Foi trabalhar cansada, o dia foi horrível. À noite esperou Valquiria na esquina de sempre, para irem à academia. Queria, precisava vê-la. Observar principalmente seus olhos, que sorriam antes de tudo, depois o rosto e finalmente a boca. Isto acontecia sempre que a via, mas não desta vez. Havia uma sombra de tristeza, o que só fez piorar a sua angústia.
- Oi!
- Está melhor?
- Não.
- Pensou a respeito do que você sente e quer?
- É só o que tenho feito.
- E...
- Ainda não cheguei a nenhuma conclusão. O meu nível de aceitação dos fatos não se fortaleceu. Quero estar com você, mas algo me impede. Ouço a voz de minha mãe, “com uma mulher? Isto é indecoroso, é pecado”. Tenho muito medo.
- Vergonha?
- Não sei!
- Olhe pra mim e diga sinceramente o que sente. Pode fazer isso?
- ...Não!
- Tudo bem. Tenho umas coisas pra resolver. Adeus.
Marina permaneceu ali parada. Queria ir atrás de Valquiria e dizer o que sentia, mas como, se não admitia pra si, se é tinha medo e tinha ...vergonha... E vergonha por isso.
Por uma semana não viu mais Valquiria. Observava sempre pela janela. Tudo apagado, janelas fechadas. Até que um dia ao chegar e olhar, tudo estava aceso, janelas abertas. Não pensou. Correu. Quando a porta se abriu, assustou-se.
- Boa noite! Desculpe, mas quem é você?
- Quem quer saber?
- Sou a vizinha...
- Você deve ser Marina.
- Conhece-me?
- Só de ouvir falar?
- Onde está Valquiria?
- Por ordem. Eu sou Solange, a irmã. Estou tomando conta do apartamento e das coisas mensais, até que ela volte.
- Volte? De onde?
- De algum lugar da África. Estará lá por um ano, com uma missão de saúde, num desses países cheio de problemas onde a OMS está sempre ajudando.
- Um ano?
Marina sentiu-se perdida, muito pesada para seus joelhos. Solange a tratava rispidamente, com desprezo mesmo. Olhou-a e percebeu o estado que ela ficara. Sentiu pena, ao vê-la apoiar-se.
- Ela não podia!
- Tanto podia que fez.
- Por que não me disse?
- Por que ela diria? Lá ela vai estar bem ocupada, sem tempo para pensar em você, que não é capaz de gostar dela.
- Não sou capaz?
- Pelo menos uma vez, você disse isto a ela?
- Não.
- Olhe! Agora você vai ter que sair, eu já ia fechar tudo. Vou passar sempre por aqui, se quiser conversar um outro dia.
- Obrigada. Boa noite.
Dali em diante, sempre que possível, quando Solange vinha, Marina ia até lá conversar. Perguntava sobre Valquiria, desde a infância, seus gostos, tudo. Ajudava-a, para tocar nas coisas e lembrar. Às vezes chorava. Meses depois Solange perguntou.
- Se a ama do jeito que demonstra, por que não ficou com ela?
- Não fui criada pra isto e sim para “honrar e dar continuidade ao nome da família”. Minha mãe é cheia de preconceitos, porisso perdeu meu pai. Mas continuam na mesma casa pra manter as aparências diante da sociedade. Ele já teve outras, acho até que tem alguém mais importante que minha mãe em sua vida. Dá força aos filhos, mas não quer brigar pela felicidade dele. Talvez eu seja como ele. Uma covarde. Um mês depois de ela ter ido embora, se eu soubesse onde ela está, eu teria ido pra lá. Nunca tinha sentido tanta solidão, nem tanta falta de alguém, mas se ela estivesse aqui e eu estivesse vendo-a, conversando, será que eu teria tomado uma atitude? Não sei. Ela é a pessoa mais gentil, mais terna que conheci. A voz dela tem uma suavidade impar. Você já viu como seus olhos sorriem antes de tudo, quando se alegra? Antes mesmo do rosto, porque ela faz tudo intensamente, com todo o corpo, mas os olhos demonstram primeiro e ...Desculpe.
- Não se preocupe, só estava ouvindo. Você já viu como fica quando fala dela? Você brilha. É interessante.
Marina às vezes saia com Solange. Ficaram amigas. O que não sabia, era que toda a família tinha conhecimento sobre o que conversavam, menos Valquiria, é claro. Tentou fazer novos amigos, sair um pouco mais. Alguns dos homens tentavam cantá-la. Até deixou um beijá-la e teve certeza que não queria nenhum homem em sua vida. Não tinha o sabor da boca de Valquiria. Saia com Simone e Claudia, pois podia falar abertamente com elas. Num certo bar, até foi dançar com algumas mulheres. Beijou uma, mas não tinha a mesma textura, a mesma despreocupação, a mesma espontaneidade.
- Daí beijei uma garota linda.
- Sério. Foi igual?
- Nem de longe. Sabe Solange, acho que descobri porque sempre faltava algo pra eu ser feliz num relacionamento. Sou mulher de uma pessoa só. Da pessoa por quem sentisse todo o amor possível de se sentir. Aquela especial, de toque divino. E eu a deixei ir embora.
- Fica fria. Tenho que passar na casa de minha mãe, antes de irmos para o cinema, se importa?
- Não, mas não íamos jantar?
- A gente come alguma coisa, é rápido. Só vou deixar os resultados dos exames que peguei. Amanhã cedo ela vai ao médico pra levá-los.
- Ela está bem?
- Está. É rotina.
Ao chegarem na casa, Solange desceu e trancou a porta do carro.
- Vamos!
- Não, eu espero aqui.
- Deixa de frescura. Vem.
Entraram. Havia um dos irmãos na sala. A mãe estava na cozinha.
- Oi Pedro. Ce tá bom?
- Tranqüilo.
- Esta é Mari, uma amiga minha.
- E aí, tudo bem? Sente-se.
- Tudo, obrigada.
- Mãe, teus exames para amanhã estão aqui. Beijinho. Estamos indo, vamos jantar e depois cinema. Qualquer coisa me liga. Esta é Mari.
Tinha ido até a cozinha e dona Laura voltara com ela.
- Como vão jantar? Gastar à toa pra quê? Tem comida suficiente. Jantem primeiro.
- Mas mãe...
- Sem discussão. Arrume a mesa. Pedro vê se a moça quer alguma coisa.
Marina ficou sem graça. Não tinha o hábito de comer na casa de alguém, principalmente na 1ª vez. Ainda mais depois que Solange lhe contara que a família a odiava, por ter deixado Valquiria ir embora.
- Não quero nada, obrigada.
- Vem ver as fotos dos meus filhos e netos. Vem cá
Havia um móvel e em cima dele várias fotos de adultos e crianças, emolduradas. Olhava distraidamente. Cinco eram de crianças.
- Belas crianças. Todos são seus netos?
- Todos.
Então viu a foto dela. Estava sorrindo, curvada, com os braços abertos como aguardando alguém entre eles. Marina deixou de ver as outras fotos, seus olhos marejaram, sua mão se estendeu e pegou o porta-retrato. A outra mão automaticamente acariciava a foto. Piscou e as lágrimas desceram.
- É ela, não é Solange?
- É mãe. Acho melhor a gente ir. Marina!
Voltou à realidade. Olhou para a senhora. Estendeu o braço para entregar-lhe o retrato.
- Desculpe. Vamos Solange.
- É, você tem razão. Ela ama sua irmã pra valer. Quiqui se precipitou em nos deixar, mesmo. Sentem-se pra jantar.
- Eu sei que a senhora não gosta de mim, eu entendo. Portanto é melhor a gente ir.
- Eu não gostava, no começo, mas depois de tudo que tem conversado com Solange, e a gente sabe que tu gosta de Quiqui e que tem sofrido com a falta dela. Agora, não discuta e sente-se.
- Solange, você podia ter me dito que tua família não me odiava mais. E agora? Você armou pra mim?
- Não, eu juro.
Durante o jantar, conversaram bastante. Logo Marina estava à vontade. Só sentia por sua família não ser assim. Perderam a hora pro cinema. Solange levou-a pra casa. Soube que Quiqui, era como Pedro a chamava quando pequenos.
- Não quer mesmo que eu fale com Valquiria, quando ela ligar?
- Não, não quero. Prefiro que ela resolva um dia se quer falar comigo.
- Ela não sabe o que você sente.
- Ela não sabe que decisão eu tomaria agora, mas o que eu sinto, ela sempre soube.
- Você é que sabe.
Algum tempo depois, Solange ligou no escritório, coisa que não costumava fazer. Era uma 5ª f.
- O que foi, algum problema?
- Tá na hora de você fazer alguma coisa. Valquiria ligou, como já ultrapassou dez meses e já vai acabar seu tempo de contrato, tem que optar, se fica ou volta. Está pensando em mais um ano. (breve silêncio). Marina você está aí?
- Não vou agüentar Solange. Vou pensar. Obrigada.
No sábado foi almoçar com sua família. Observou-os. Tudo muito educado e muito vazio. Conversara com seu pai e confirmara que ele realmente há alguns anos tinha outra mulher e que tinha uma filha de 10 anos com ela. Marina era a única da família que sabia e que as conhecera. Gostava muito da menina, e simpatizara com a mulher que realmente amava seu pai. Sua mãe vivia em um mundo à parte. Os irmãos, um casal, só se interessavam por coisas que lhes dessem prazer ou lucro. O irmão estava no 2º casamento; a irmã, divorciada, tinha seus namorados. Dois filhos cada. Não estavam presentes. Resolveu dar um basta em tanta frivolidade.
- Sabe mãe! Você sempre nos pregou a importância da família, do casamento, do bom partido. Sempre “arranjou” namorado à altura para seus filhos e olhe só, nenhum está realizado emocionalmente, nenhum é feliz. Baseada nas suas idéias esperei o homem perfeito, que me faria feliz, seria perfeito na cama e cheguei a pensar que era frígida, nas poucas vezes que fui pra cama com alguém. Aí conheci alguém especialíssimo. Alguém que cujos olhos sorriam assim que me via, só por estar me vendo. Alguém gentil, que faria qualquer coisa só pra me ver sorrir, me sentir bem, sem cobranças. Alguém que é insuportável não ver, que dói demais sua ausência. Alguém que faz meu sexo doer e querer ser tocado, num simples afagar. Seu simples tom de voz deixa claro se quer algo mais que uma conversa. Que tem gestos mansos, é inteligente, capaz. E eu tive medo do que você ia pensar, do que podia dizer. Tive vergonha dela não estar à altura dos seus delírios e por covardia a deixei ir. Simplesmente por ser mulher.
- O quê? Uma mulher? Você ficou louca? Nem em sonho. Filho meu é normal, não é nenhum depravado ou louco.
- Pare Isabel. Ela tem razão. Faz tempo que não somos uma família. Sabia que ela estava sofrendo, que não estava bem e não tomei uma atitude digna de um pai nossos filhos estão infelizes, nós estamos infelizes. Está na hora. De colocarmos a locomotiva, e todos nós seguirmos, os trilhos adequados a cada um.
- Que barato! Irmãzinha, você é gay e assumiu isto no templo da hipocrisia. Parabéns. Seja feliz.
- Vocês beberam demais, foi isso?
- Não mãe, eu não bebo, lembra-se? Eu vou indo. Boa tarde a todos.
Saiu. Seu estomago não agüentava mais tanta falsidade. Assim que entrou em casa, apanhou o telefone e discou o nº do telefone de Valquiria.
- Oi. Sou eu. Sua irmã disse que você pretende ficar mais um ano por aí, não sei onde. Se me esquartejassem viva, seria uma morte menos dolorida. Tua falta me mata aos poucos, todos os dias. Mais uma no e não restará mais nada de mim. Durmo pouco, choro muito, como pouco, te sonho muito, mesmo acordada. Se vou a algum lugar que já estive com você, fico lembrando, se não estive lá com você, fico imaginando como seria. Filmes, músicas. Tudo me faz pensar você. Desculpe. Não. Perdoe minha covardia. Tudo o que tenho de palpável de você comigo, é uma foto que tua mãe me deu e aquela almofada que sempre segurava enquanto falava. Durmo com elas, o pouco consigo. Preciso te ver, te ouvir. Fala comigo, nem que for pra dizer adeus, ou se ainda sente algo por mim, volta. Valquiria, eu te amo, como nunca pensei que fosse possível.
Solange veio cuidar do apartamento e como sempre foi ouvir os recados. Chorou e desta vez, não apagou. Ligou para a África.
- Oi maninha!
- Solange? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Eu sei que não é dia de ligar, mas tenho uma amiga, muito querida pela família e... Você já fez a opção?
- Não. Ainda tenho uma semana para dar a resposta.
- Então essa minha amiga, ligou pra tua casa e deixou uma mensagem muito importante. Antes de tomar uma decisão, gostaria que a ouvisse. Pode ser? Por favor.
- Tá bom. Hoje à noite eu vou ouvi-la.
- Obrigada. Beijos.
Por volta das 22h00min h., o telefone de Solange tocou.
- Alô!
- Então enquanto eu me mato de trabalhar, você fica de fofoquinha e amizade com meus desafetos.
- Pois é. Ouviu tudo?
- Você a levou na casa de mamãe?
- Levei. Depois de ouvir cada coisa a teu respeito! Se eu gostasse de mulher, eu teria me apaixonado. Quando você voltar te conto tudo. E aí?
- Solange?
- Fala.
- Obrigada. Você a deixou levar minha almofada!
- Você está chorando?
- Obrigada. Tchau.
Quando Solange, na outra semana veio ao apartamento, Marina foi vê-la.
- Ela já escolheu?
- Agora não nos diz mais nada.
- Ela liga aqui pra ver os recados?
- Não sei. Acho que não.
Quase dois meses depois, Solange recebeu um telefonema, cedo.
- Pode me pegar no aeroporto?
- Quando?
- Às 15h30min h. estarei chegando.
- Aviso alguém?
- Ninguém, por favor.
- Estarei lá.
Chegou. Foi para a casa da mãe, conversaram um pouco, prometeu voltar no dia seguinte e foi pra casa. Tomou banho e saiu.
Marina havia acabado de sair do banho quando tocaram a campainha. Pensou ser a vizinha, já que o porteiro não avisou. Colocou o roupão e foi abrir a porta. Assustou-se. Deu alguns passos para trás, o coração lhe parecia, querer sair pela boca, queria rir e chorar ao mesmo tempo. De repente ficou muito pesada para os joelhos, que começaram a fraquejar. Valquiria entrou, fechou a porta e segurou-a. Marina passou as mãos em seu rosto.
- Seus olhos... Estão... Sorrindo.
Valquiria ajudou-a a chegar ao sofá. Tirou o vestido que vestia, sem mais nada. Abriu o roupão de Marina e olhou-a demoradamente.
- Você emagreceu, mas continua linda pra mim.
Beijaram-se, suavemente a princípio, depois com sofreguidão. Foram para o quarto. Antes de chegarem à cama, Marina foi segura pelos ombros, mãos seguraram seu roupão e o tiraram lentamente. Foi abraçada por trás, ao dissolver o abraço, mãos percorreram seu corpo, pela frente, enquanto corpo e boca o percorriam por trás, explorando, conferindo. Sentiu-se livre, em pleno vôo. Virou-se e colou-se inteira naquele corpo amado. Caíram na cama, sem interromper as carícias. Mãos percorrendo todos os poros. Línguas beijando, lambendo, entrando. Enquanto a língua ia entre os pelos, da frente para trás e voltava, sugando as coxas, dedos cuidavam daquela cavidade misteriosa, num frenético ir e vir e quando voltavam para o restante do corpo, a reciprocidade em seu próprio corpo, era altamente retribuída.
Horas depois, Marina estava deitada sobre o corpo de Valquiria, ambas completas naquele vazio repleto de prazer, naquele isolamento completo do mundo, que só os verdadeiros amantes conhecem.
- Acho que você gosta desta posição.
- Estou pesada?
- Tanto quanto devia pesar.
Abraçou-a.
- Só quis dizer que você gosta de ficar assim, não que deveria sair. Sonhei tantas vezes com esta situação. Que saudade!
- Quem inventou esta palavra, estava inspirado. Muita coisa já foi dita a seu respeito, do quão sofrida ela pode ser, mas ninguém, nunca conseguiu descrevê-la à altura. A gente realmente pode morrer de saudade, se souber que não haverá volta, sabia? (encarou-a). Nunca mais faça isso comigo. Não me abandone de novo.
- Nunca mais.
- Não queria você nesta cama. Se soubesse que viria, teria trocado. Pensei em fazer isto várias vezes, mas não tinha motivo real.
- A privacidade?
- Não. Não trazia namorados pra casa por privacidade. Toda a mobília aqui, foi minha mãe que escolheu. Lembra? Eu te disse que veio assim como está, não tem nada de mim nesta casa, ao contrário da sua, que é inteira você. Entendeu?
- Entendi. Durma um pouco que você tem que trabalhar. Amanhã é 5ª f. moça. Acho que estou com fome.
- Você viajou sem parar, sem descanso decente, deve estar exausta. Vem, vamos comer alguma coisa, depois, dormir.
- Enquanto você prepara o que comer, troco os lençóis. Onde estão?
 Apanhou dois lençóis enquanto Valquiria tirava os da cama. Colocaram rapidamente e foram pra cozinha. Marina ia colocar o roupão.
- Não coloque não. Deixa eu te rememorizar.
Comeram salada e torradas e foram dormir. Parecia que tinha acabado de fechar os olhos e o relógio acordou-a com música. Desligou-o rápido para não acordar Valquiria, mas ao soltar sua mão e esta deslizar por seu seio, soube que ela acordara.
- Bom dia. Vou deixar uma chave em cima da mesa da cozinha. Durma bem.
- Vem dar beijinho antes de sair?
- Venho.
Voltou para se despedir. Ficou ali parada, olhando-a dormir por uns instantes.
- Que foi?
- Nada. Só vim dizer até mais tarde.
- Hummm...
- Não perguntou o que eu decidi. Já sabe?
- Se não tivesse se decidido, não me deixaria aquela mensagem.
- Verificava sempre?
- Nunca. Solange pediu pra eu ouvir a mensagem, que uma amiga dela deixara pra mim.
- Tenho que agradecê-la. Tchau.
- Tenha um bom dia. Posso te ligar?
- Sempre.
Pelas 14h00min h. ligou.
- Atrapalho?
- Nunca.
- Hum, hum! Sempre, nunca. Que progresso!
- Você provocou isso.
- É gostoso de ouvir, dito assim num tom tão suave. Estou indo conversar com mamãe. Você me apanha lá ou espera em casa?
- Te apanho lá. Valquiria!
- Oi.
- Nada.
- Eu sei. Cada célula minha sente o mesmo. Beijos.
O pai de Marina veio à sua sala para conversar um pouco.
- Filha, você me deu o que pensar naquele almoço. Criei vergonha. Resolvi ser feliz e saí de casa. Fui para um lar, um lugar onde você e seja lá quem for que você goste, serão bem-vindas. Sua mãe marcou um jantar “em família” pra sábado às 19h00min h., para contar aos filhos. Vai poder ir?
- Parabéns pai. Fico contente por vocês três. Quando for ver minha irmãzinha, vou levar alguém. Ela voltou pai.
- Porisso você está tão diferente hoje!
- É. Estou feliz. No sábado, aproveito para informar dona Helô.
- Estarei ao seu lado filha.
Por volta das 18h15min h., chegou à casa de dona Laura. Assim que entrou, sentiu o clima festivo, toda a família estava lá. A matriarca abraçou-a Estava feliz da vida.
- Oi filha. Obrigada por trazê-la de volta.
Aproximou-se de Valquiria, beijou-a no rosto, sentindo uma ternura imensa. Valquiria fez com que se sentasse ao seu lado e ficou segurando-lhe a mão, bem à vontade. Uns minutos depois, deixou de se preocupar, percebeu que a única que se importava era ela. Sorriu e resolveu curtir. Afinal era a primeira vez que estavam juntas ali.
Voltaram pra casa, tarde da noite e mesmo assim sob protesto, prometendo retornar no final de semana. No caminho de volta, contou-lhe sobre o jantar do sábado.
- Quer que eu vá junto?
- De jeito nenhum. Não se leva pássaro à jaula de cobra. Jamais a exporia de tal forma e eu vou voltar logo. Não é jantar como na casa de dona Laura. Fica comigo hoje?
- Não prefere ficar em casa?
- Prefiro, mas tenho que trabalhar amanhã cedo.
- Então, ficamos lá.
Acordou de madrugada agitada, sonhou que estava só, estava chorando. Foi abraçada fortemente.
- Durma. Não vou a lugar nenhum.
Aconchegou-se e dormiu até ser acordada pelo relógio.
Passaram a manhã de sábado juntas. Tomaram café na padaria, com pão quente.
- Vim aqui algumas vezes, durante este ano.
- Tomar este café?
- É, mas perdeu o sabor enquanto você não estava; só estava na lembrança. Hoje voltou a ter um sabor delicioso.
À noite Valquiria foi pra casa da mãe e Marina foi ao malfadado jantar. Tentaria com o pai, pegar uns dias de férias, pois Valquiria a partir de 2ª f. teria um mês para descansar, antes de voltar a trabalhar no hospital. Falou com ele antes do jantar. Concordou de imediato. Ao sentarem-se à mesa ele começou a falar.
- Acho que vocês não conhecem bem seus antepassados crianças. Sabem que tudo é hereditário, precisam conhecer bem o passado, para se prepararem para eventualidades. Sabem sua tia-avó Carlota?
- A professora que vivia com outra professora? Perguntou Lídia.
- Essa mesmo filha. Pois é, literalmente viviam juntas. Apesar de todas as pressões e terem que manter a maior discrição, conseguiram ser felizes. Quando minha tia faleceu a outra não ficou muito tempo viva. Viveram juntas por 42 anos.
- Isso é lindo pai. Enfrentar o mundo por tanto tempo, numa época daquela!
- Deve ter esses casos bem antes nas famílias, homens e mulheres.
- Na minha não.
- Escondiam isso sim!
- Por que veio com essa conversa? O assunto aqui é outro. Esse jantar é para informar nossos filhos que você saiu de casa.
- Há tempos eu não “estou” nesta casa. Crianças estamos nos divorciando. Eu resolvi ser feliz com quem gosta de mim e não ser mais um faz de conta.
- Até que enfim meu velho.
- Bom pra você pai. Só espero que não se afaste da gente agora.
- Não, vocês sempre serão meus filhos.
- Não vai dizer nada Marina?
- O que mãe? Que ele deveria ter feito isso antes?
- Pelo jeito ninguém está do meu lado.
- Helô, não há lados nisso. Todos somos adultos, só acabamos com uma farsa.
- Bom, antes que comece a discussão e esse jantar faça mal a todos, vou dizer uma coisa mãe. Lembra-se do que falei outro dia? Pois é. Ela voltou e vou estar pelo resto da minha vida com ela.
- Só por cima do meu cadáver. Naquele apartamento não vai entrar vagabunda nenhuma.
- Helô, nós demos pra ela. Ela faz o que quiser.
- Não. É nosso, é patrimônio da família, até os móveis. Era pra ela morar, só ficaria com ele se casasse com alguém à nossa altura.
- Por favor, pai. Não discuta, eu saio. Nunca senti que era minha casa.
- E pode procurar um emprego também.
- Aí não. O escritório é problema meu. Lá você não se mete. Principalmente se quiser uma pensão no divórcio, já que os filhos são todos adultos.
- Obrigada pai. Até segunda. Maninhos, tchau.
- Quando vou conhecê-la?
- Se for com respeito, quando quiser Lídia.
- Também estou indo. Boa noite crianças. Vou comer onde não me faça mal.
O telefone de dona Laura tocou. Atenderam.
- Quiqui é pra você. Parece que o jantar já acabou.
- Oi amor. Tá tudo bem?
- Ótimo. Só tem um probleminha.
- Qual?
- Pode me alojar por uns tempos? Só até eu me organizar. Dona Helô cessou o empréstimo do apartamento.
- Vem pra cá e amanhã a gente faz a mudança, com uma condição.
- Qual? Dividiremos as despesas, é claro.
- É claro. Você consegue dormir bem, longe de mim?
- Não mais.
- Então a condição é esta. Cafuné as noites, pelo resto de nossas vidas, pra eu dormir. E nada de se organizar fora de casa.
Na 2ª f., após o trabalho, foi até a casa da mãe pra entregar-lhe as chaves do apartamento e as contas pagas do mês.
- Se fizer isto, não precisa voltar aqui. Não terei mais você como filha.
- Eu já fiz. Tem mãe melhor que você por aí. E eu estou indo pra casa finalmente. Adeus dona Helô. Querer ou não ter filhos, é uma escolha sua. Que tipo de filho, é escolha dele.

 

FIM

 

sábado 20 dezembro 2008 18:37



1 comentário(s)

  • MJ Dom 01 Mar 2009 11:04
    Obrigada por esse conto, é lindo e cheio de ternura.


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