Em São Paulo a correria é constante. Valquiria
chegou em casa estafada. Enfermeira, dera um plantão noturno na UTI
do hospital, substituindo férias, seu horário normal é de dia, mas
algum dinheiro extra sempre cai bem. Depois do serviço, acompanhara
sua mãe, viúva ao médico e só agora, na hora do almoço entrou em
seu apartamento. Trabalhara muito na vida, ela e toda a família.
Desde os 13 anos, já trabalhara de doméstica, babá, vendedora, em
balcão de lanchonete, auxiliar de enfermagem, guardando cada
centavo para pagar os estudos, até completar a faculdade. Depois,
de dia em hospital, a noite acompanhando senhoras em casas, para
poder ter “seu canto”. Finalmente estava tudo pago. Aos
34 anos era uma excelente profissional. Seus três irmãos
conseguiram da mesma forma, com muito esforço. Já morava ali há
cinco anos e há dois, estava livre de dívidas. Agora guardava para
viagens de férias. Olhou pela janela, pensando em fechar a cortina
da sala para dormir e do outro lado da rua, viu alguém nua, com a
janela do quarto aberta, exatamente na direção de sua sala. Nunca
vira ninguém ali antes, talvez por seus horários.
Marina, desde que se formara em Direito, trabalhava com o pai,
advogado conceituado, conhecido e caro. Especializara-se em Direito
Trabalhista. Ganhara já vários casos, era bem conhecida no meio e o
pai gostava de tê-la trabalhando com ele. Aos 32 anos, podia-se
dizer que escolhera o caminho certo. Quando se formara, os pais
prometeram-lhe um apartamento, mas seguraram-na ao máximo em casa e
finalmente há cerca de três anos, morava em seu próprio lar, embora
já viesse embalado, isto é, ganhara-o já mobiliado e decorado.
Sempre pensava em mudá-lo, mas vivia adiando para não magoar a mãe.
Naquele dia houve um incidente. O neto do sócio do pai, viera ao
escritório visitá-lo e em uma curva nos corredores entre as salas,
trombara em suas pernas, sujando e manchando sua roupa com o lanche
que segurava, um festival de maionese, ketchup e mostarda. Como
tinha audiência às 16h00min, aproveitara a hora do almoço para vir
se trocar e como estava calor, também para um banho, mas na pressa
esqueceu-se da janela; normalmente só estaria em casa naquele
horário em finais de semanas. Quando saía pela manhã, deixava as
janelas abertas e quando chegava, quase noite, fechava-as. Afinal
morava no 7º andar. Escolhia a roupa que ia usar, quando percebeu,
aí colocou de imediato o roupão e foi fechar a janela.
Do outro lado Valquiria percebeu que não era exibicionismo, mas
distração e pensou se alguém mais teria visto. Foi dormir.
Apesar de seu sucesso, Marina não era feliz. Às vezes achava-se
ingrata com o destino. Gostava do que fazia e fazia-o bem. Tinha um
belo namorado, tivera outros antes dele, mas nunca se empolgara
muito. Não era puritana, nem virgem, mas não sentira aquilo que as
pessoas falam do sexo, não se sentira completa e isto a levara a
não ser exatamente alguém doida por transas. As poucas vezes que
fizera sexo, mais por pressão e para tentar se sentir
“normal”, do que propriamente por vontade, sentira-se
frustrada quando o parceiro terminava e ela ainda estava a caminho.
Começava a acreditar que era frígida ou só conseguiria ser feliz na
cama, quando amasse a pessoa que ali estivesse. Justo naquele dia,
Marcelo, seu namorado, resolveu “pegar no seu pé” e
viera com ela pra casa. Não gostava de trazê-los pra casa.
Sentia-se invadida.
Ora meu bem, não é por aí. Estamos namorando há oito meses, você
não me traz a sua casa, não quer transar como todo mundo, não liga
pra mim, não demonstra o menor ciúme ou interesse...
- Tá Marcelo. Desculpe. Só um minuto, vou trocar os sapatos e já
volto.
- Está vendo? Vai trocar sapatos quando estou falando sério.
- Olhe, já tive o dia cheio hoje, com três audiências. Só estou
pedindo um minuto.
Ela foi para o quarto e ele acompanhou. Ficou irritadíssima quando
o viu em seu quarto.
- Já estou colocando os chinelos, está vendo? Por favor, me espera
na sala.
- Qual o problema eu estar no seu quarto? Sou teu
namorado!
A janela!... O pensamento passou pela sua cabeça. Desde o dia ...
Quando fora mesmo ... Dez dias passado que se vira nua frente a
janela, sempre que entrava em casa, era a primeira coisa que fazia
agora, fechá-la.
- Não por muito tempo.
- O quê?
Fechou a janela. Do outro lado, Valquiria estava de folga e fora
fechar as cortinas da sala, já que resolvera ver um pouco de
televisão, percebeu que a vizinha estava irritada. Foi ver o
telejornal.
- O que, o quê?
- O que você disse?
- Não por muito tempo.
- Você é irritante, sabia? Não demonstra nenhum respeito pelas
pessoas e quando a gente exige isso, simplesmente dispensa.
- Eu respeito as pessoas sim. Porisso nunca te menti, não te
“cantei”, não disse que te amo, nada dessas coisas. Não
está funcionando, eu continuo gostando mais da minha privacidade
que das tuas invasões. Procure alguém mais “normal” e
seja feliz. Boa noite.
Enquanto dizia isso, andara até a porta e a abrira, ficando de pé
ao lado, esperando ele sair. Marcelo queria estrangulá-la, mas
fungando saiu. Ela trancou a porta e foi tomar banho.
No dia seguinte, assim que entrou em sua sala para trabalhar, foi
avisada.
- Sua mãe ligou. É pra ligar pra ela assim que chegar.
Fechou os olhos e segurou a cabeça. Vai ser um dia longo,
pensou.
- Oi mãe.
- Menina, o que aconteceu? Por que acabou com Marcelo? Ele é
uma ótima pessoa, de excelente família, amigo nosso, bonito e gosta
de você. Como pode?
- O que ele é, é um fofoqueiro. Ligou ontem mesmo pra você.
- Ligou porque sabe que o namoro é de nosso agrado e...
- É do seu agrado, mas não é do meu, mãe. Ele é tremendamente
chato, quer ficar grudado e eu gosto de espaço. Preste atenção,
mãe. EU NÃO GOSTO DELE. Desculpe, mas tenho que trabalhar.
- Você vai se arrepender, filha. Pense bem, antes que ele arrume
outra mais esperta que você.
Desligou pensando “tomara que já tenha arrumado”.
No sábado, acordou cedo e resolveu ir à padaria comprar pão e
alguma coisa para um sanduíche, embora não tivesse tal hábito. Na
rua, o cheiro de pão quente tomava conta do ar. Estava contente.
Sentia-se livre. Havia uma pequena fila. O pessoal chamava os
balconistas por nome, conversavam entre si. Aquilo lhe fez
bem.
- Oi!
Virou-se para quem a cumprimentara. Era uma mulher bonita, com
olhos negros e sorridentes. Exalava simpatia.
- Oi!
- Está estranhando? Desculpe perguntar, mas nunca a vi aqui antes e
olha à sua volta como uma criança que estivesse entrando pela
primeira vez em um local assim.
- Dá pra notar é? Não, é que tenho pouco tempo, compro tudo no
mercado e hoje me deu vontade de um sanduíche com pão fresco.
- É nova no bairro?
- Já moro ali (apontou), há três anos, só nunca tinha vindo à
padaria.
- Já que quer ser diferente hoje, eu te pago o café. Pão quentinho
não é bom pra sanduíche. Leve tudo para mais tarde, mas agora vem
cá.
Acompanhou-a sentaram-se em bancos altos no outro balcão e ela
pediu.
- Bom dia Bigode! Dois pães quentinhos com pouca manteiga e dois
chocolates quentes. Com açúcar ou adoçante?
- Pode ser açúcar.
- Taí da saúde!
- Obrigada Bigode.
- Da saúde?
- Sou enfermeira. Também sou sua vizinha. Como moro em frente
(apontou), pensei que tivesse se mudado há pouco tempo, porque só a
vi há poucos dias atrás.
- Só estou em casa à noite e às vezes, final de semana. Sempre toma
café aqui?
- Não, só às vezes. Na verdade, só ia comprar pão, mas resolvi te
mostrar o melhor jeito de comer pão quente. Na minha opinião, é
claro.
- Parece um pouco cansada.
- Tirei plantão noturno. Ainda tenho mais esta semana agora à
noite. Daí volto pro dia.
Conversaram amenidades e se despediram.
Passada a semana, no domingo às 10h30min tocou a campainha no
apartamento de Marina. Foi atender.
- Valquiria! Oi! Entre.
- Não obrigada. Desculpe incomodá-la, mas tem um evento na praça
hoje e como você mora aqui, queria saber se não quer ir. Leve um
pouco de dinheiro. É beneficente. Se quiser ir, é claro.
- O que é?
- Tem música, dança, bingo, é meio quermesse.
- Espere. Entre, sente-se que vou me trocar e desço com você.
Eram coisas simples, mas divertidas. Passou alegremente o
dia.
- Faz exercícios?
- Faço na academia aqui perto.
- Também faço lá. Com o tanto de porcaria que comemos hoje,
aconselho-a a caprichar nos aeróbicos esta semana.
- Quais os dias que você freqüenta?
- 2ª, 4ª e 6ª. E você?
- Não tenho muito ânimo em ir sozinha. Deveria ir também três vezes
por semana, mas tenho ido quando estou disposta. Acho que vou
começar a ir no seu horário, aí vou ter companhia.
- Tá bom. Eu vou às 19h30min.
- Porisso não te encontrava. Eu ia mais cedo.
Começaram a freqüentar juntas a academia e Marina achou que tinha
uma nova amiga. Portanto, quando resolveu ir ao teatro ver uma peça
que queria, comprou um ingresso a mais. Na 6ª feira, quando estavam
de saída da academia, fez o convite.
- Valquiria, amanhã vou ver aquela peça que a gente comentou e
queria saber se pode ir comigo?
- Você tem muitos amigos?
- Alguns. Por quê?
- Talvez seja melhor convidar outra pessoa. Não sou a melhor
companhia para você.
- Pensei que a gente se dava bem, que fossemos amigas.
- Venha até em casa, por favor.
Entraram.
- Sente-se, por favor. Aquela é a janela que dá pro teu quarto. A
primeira vez que eu a vi, você estava nua bem em frente. Cheguei a
pensar se alguém mais a vira, mas devido a hora, eu duvido.
Normalmente os apartamentos estão vazios naquele horário. A segunda
vez, você discutia com alguém.
- Justamente as duas únicas vezes que aconteceu alguma coisa de
janela aberta, você tinha que ver?
- Não foi proposital, posso te garantir.
- Sei que não.
- Quando falei com você na padaria, não sabia que estava lá até ter
entrado. Queria saber a cor dos teus olhos.
- E qual é? (fechou os olhos)
- Mel.
- E por isso você não quer ir ao teatro comigo?
- Não. É que já faz algum tempo que vivo só, você é uma mulher
agradável, inteligente e muito bonita e eu sou homossexual. Por
isso tudo, não sou a melhor companhia pra você.
- Tenho amigos homossexuais!
- Estão sós?
- Não, mas gosto de você e só queria ir ao teatro. Qual o
problema?
- Tá bom.
- Amanhã às 18h00min a gente se encontra. Vamos jantar calmamente e
depois teatro. Anote meu telefone e me dê o seu pra
eventualidade.
Daí pra frente, sempre que o trabalho de Valquiria permitia, saiam
juntas pra shows, cinemas, teatros ou só para andar um pouco. Até
que um final de semana, sete meses depois daquela conversa, Marina
convidou-a a ir pra praia.
- Não obrigada.
Marina a havia chamado a seu apartamento Valquiria estava sentada e
ela a sua frente em pé.
- Por que não? É só um final de semana, me deu vontade e todo mundo
tá ocupado, ou viajando. Não tem graça ir sozinha.
Valquiria suspirou, colocou o cotovelo no braço da poltrona e o
dorso da mão na boca e apenas olhava para Marina. A blusa justa de
Marina erguia seus seios e o decote, mostrava-os sensualmente.
Insistiu.
- Por quê?
Valquiria levantou-se de repente, colocou as mãos na cintura de
Marina, o rosto em seu colo, aspirou com suavidade seu cheiro e
delicadamente beijou a pele de um e do outro seio.
- Porisso. Desculpe. Adeus.
Saiu. Marina ficou estática, com os pelos das costas e pescoço
arrepiados, sentindo a ternura do ato. Sem ação. Alguns minutos
depois, correu para o quarto para verificar pela janela se
Valquiria já chegara. Esperou. Assim que ela entrou,
telefonou.
- Alô!
- Sou eu.
- Desculpe. Tá muito difícil pra mim. Te preveni, não foi?
- Ainda quero ir com você
- Tá muito doído, não quero sofrer mais que isso não.
- Por favor. Eu não entendo determinadas coisas muito bem, mas
neste exato momento, não sei por que, preciso estar com você. Posso
ir aí?
- Se quiser.
Foi o mais rápido que pode.
- O que você quer Marina?
- Não sei. Sensações. Algo que nunca senti. Preciso saber.
- Não posso te ajudar.
- É a única que pode.
- Tua mãe não aceitaria. Você não aceita.
- Como não! Já te disse que tenho amigos...
- Amigos, não pra você. Vá embora, por favor.
- Não estou dizendo que quero um caso com você.
- Quer experimentar. É isso?
- Não vou mentir. Talvez seja.
Despiu-se devagar, sem pensar no que fazia, sentindo o olhar de
Valquiria queimando sua pele inteira. Aproximou-se. Valquiria
permaneceu imóvel. Com mãos trêmulas, começou a despi-la.
Encostou-se no seu corpo, tentou beijá-la, ela virou ligeiramente o
rosto. Segurou-o com as duas mãos e suavemente virou-o de volta.
Beijaram-se. Sentiu-se enlaçada; mãos em suas costas, descendo até
as nádegas, apertando-a e subindo até o pescoço. Afastado o corpo,
as mesmas mãos seguraram seus seios, espremeram, acariciaram,
brincaram com os mamilos, então os lábios se desprenderam dos seus
e percorreram o caminho das mãos e as mãos tomaram outros caminhos,
às vezes com força, às vezes com suavidade e a boca invejosa e
ciumenta percorria seu traçado. Em troca outras mãos tocavam o
corpo das mãos andarilhas, com estranho êxtase, extrema
curiosidade, um pouco desajeitadas, inexperientes, mas ávidas,
atrapalhadas por um corpo fremente que se desmanchava perdendo
qualquer controle. Manuseado até sua profundidade que clamava por
elas, retribuiu abrindo suas comportas, terminando com a seca, há
tanto instalada.
Estavam no sofá, não está muito duro. Estavam no tapete. Marina
pensava, tentando recuperar o controle do corpo. Estava meio no
tapete, meio ... Sobre Valquiria. Isto dificultava a reação de seu
corpo, aquela metade sobre o outro corpo. Esforçou-se para separar
o toque. Foi ajudada.
- Você está bem?
- Hum, hum.
Bom, agora já sabia o que era se “sentir completa” no
sexo, mas será que era isso? Ela era diferente? Tinha que ser com
... Uma mulher? Não quis pensar mais nisso. Não agora. Abriu os
olhos. Valquiria olhava-a preocupada. Voltou a perguntar.
- Você está bem? Te machuquei?
- Não, eu estou bem. Posso ficar aqui um pouco?
- Em casa pode, mas não no chão. Venha pra cama.
- Valquiria ajudou-a, levantou-se, deitou na cama, ainda
sentindo-se bamba. Gemeu e dormiu.
Acordou de madrugada. Tinha um abajur aceso, o que indicava que
Valquiria se preocupara. Sentou-se na cama e ficou olhando-a teve
vontades estranhas, mas ficou quieta para não acordá-la. Ela se
virou, dormindo, e um seio ficou à mostra. Marina ia cobri-la, mas
aquelas vontades estranhas estavam presentes. Acariciou-lhe o rosto
e este demonstrou um meio sorriso. Descendo a mão pelo pescoço,
acariciando toda a extensão até tocar-lhe o seio. Aquele corpo
dormente reagia, mexia sensualmente, provocava. Puxou a coberta,
deixando-o totalmente a vista, encostou-se nele, deslizou por ele,
tocou com o corpo, com as mãos e boca cada parte que se contorcia,
menos o rosto. Observava-o. As mudanças de expressão; parecia que
sonhava e a boca gemia acompanhando o sonho. Quando passou a língua
pelo monte de Vênus, um relampejo passou-lhe pela mente, nunca
pensara em fazer nada disso, mas continuou descendo e ao sentir e
ver quão molhado estava, parou de pensar e agiu. Quando parte de
sua mão entrou, seguindo a trilha da língua, o corpo acordou e
seguiu seu ritmo. Nunca impusera um ritmo antes. Adorou aquilo e
mais ainda, quando soube que aquele corpo chegava ao clímax, com
ela. Terminando o gozo uma mão daquele corpo, procurava o outro
para terminarem juntas. Sorriu e murmurou.
- Não precisa, não agora!
Não precisava mesmo. Olhava o resultado de suas carícias e reagia
da mesma forma. Descobriu que o que fizera falta até então, era o
sentimento para chegar à emoção maior. Deitou-se sobre Valquiria.
Esta abraçou-a.
Acordou, olhou o relógio no criado-mudo. 06h00min. O primeiro
pensamento foi terrível. “O que eu fiz, o que aconteceu? Como
vou explicar pra minha família? Que sou anormal?” Ficou
apavorada com seus próprios sentimentos. Levantou-se sem fazer
barulho, cobriu Valquiria evitando olha-la, vestiu-se e saiu.
Trancou a porta e passou a chave por baixo. Entrou em sua casa, foi
direto para o chuveiro. Tomou um banho prolongado, mas seu corpo
parecia marcado pra sempre. Quando se ensaboava, sentia a sensação
de outra mão e viu-se masturbando, sentindo a outra. Apressou-se,
vestiu-se e saiu.
Tocou a campainha várias vezes. A porta foi aberta
finalmente.
- Que foi? Entre. Estourou a guerra ou o quê? Pra me tirar da cama
de madrugada, no meu dia de folga?
- Desculpe Simone. É que estou desesperada. Podemos
conversar?
- Claro, mas deixa eu acordar primeiro. Vou tomar um banho, vai
fazendo café.
- Que aconteceu? Quem era?
- Era não. É Marina.
- Oi Claudia. Desculpe por tê-las acordado.
- Você está bem?
- Não. Mas vai passar. Quanto de pó?
Fez o café. Claudia arrumou a mesa.
- Pronto. To acordada. Enquanto tomamos café, pode começar a
falar.
- Talvez ela não queira que eu ouça.
- Pode ouvir sim. De qualquer forma ela iria te contar
depois.
- Vai Marina, desembucha. E nada de linguajar de tribunal, por
favor, me cansa.
- Você se lembra daquela minha amiga, que também é minha
vizinha?
- Ah! A sapata por quem você tem uma queda...
- Si, não fale assim.
- Não ligue Marina, você a conhece.
Contou o ocorrido, sem detalhes íntimos, é claro.
- E você gozou e gostou. Este é o problema?
- Por que escolhi você pra conversar sobre isto?
- Porque somos o único casal gay de suas relações. As bichas que
você conhece são fofoqueiras.
Claudia ria.
- Marina, o importante é como você se sentiu, qual o sentimento que
rolou. Foi forçado ou natural? Só que Si gosta de resumir.
- Foi natural, com muita emoção. Acho que foram meus primeiros
orgasmos na vida, mas...
- Foi com ela e não com o futuro marido perfeito.
- É. Já vi mulheres nuas e não me diziam nada, não sentia nada, mas
olhar pra ela, passa umas idéias absurdas pela cabeça.
- Por que absurda? A gente ama alguém, o gênero que esse alguém
pertence, é detalhe.
- Detalhe? Você acha que minha família vai concordar?
- O problema não é tua família, menina. Ela tinha razão, quando
disse que você não aceitava. Só não aconteceu nada antes, porque
ela respeitou teus medos. Porisso ela pediu pra você sair e
esquecê-la. Se ao invés dela, fosse um homem que tua mãe
detestasse, por não ser da mesma classe social, você a enfrentaria?
Porque é só tua mãe, o resto da família não se incomodaria se for
uma pessoa decente. E pelo que tenho ouvido, ela é das mais
decentes.
- É a mais gentil, a mais decente, a mais amiga e eu...
- Diga
- Diz Marina.
- É absurdo. Por que tinha que ser assim?
- Você recebe na tua vida alguém desse quilate e ainda reclama?
Você foi criadinha pela mamãe, pra encontrar o príncipe encantado,
ter muitos filhinhos e ter um porre de vida. Bom, bem-vinda a vida
real, com alguém que pode te fazer bem mais feliz e você não
consegue dizer que a ama.
- Não percebeu nada antes Marina? Nenhum indício desde que começou
a encontrá-la direto e não ir a lugar nenhum se ela não pudesse ir,
ou nas raras vezes que saiu com outros amigos, sentir tremendamente
a falta dela?
- Eu não queria que fosse assim.
- Você não queria ver que é assim. O que pretende fazer
agora?
- Marina, não temos a resposta pra você. Você tem que decidir sua
vida, sua felicidade. Pra nós é diferente, nos amamos e não somos
bitoladas, preconceituosas, nem temos famílias tradicionais,
centenárias.
- Posso ficar aqui?
- Tá fugindo dela?
- Si, por favor. O tempo que quiser. Não pretendíamos fazer nada
hoje.
Passou o dia com as amigas.
Valquiria estava preocupada. Ligou para o celular, direto caixa
Postal. Marina deixara-o em casa, desligado. Assim que retornou,
Valquiria viu pela janela e foi falar com ela. Marina abriu a
porta, mas não olhou para ela.
- Está tudo bem com você?
- Humm.. (balançou a cabeça).
- Onde você esteve? Fiquei preocupada e ...
- O fato de termos transado, não lhe dá o direito de me controlar,
não acha?
- Acho. Desculpe, não está mais aqui quem falou.
Virou-se e saiu. Marina teve vontade de chorar, de se estapear.
Correu para alcançá-la, não conseguiu. Voltou, fechou a casa e foi
atrás dela. Bateu na porta. Valquiria a abriu e não esperou que
entrasse, deu-lhe as costas e foi para o sofá. Entrou, fechou a
porta, respirou fundo e se virou.
- Desculpe. Foi uma atitude horrível. Estive na casa de Simone e
Claudia. Estava me sentindo perdida, precisava conversar com
alguém... Com...
- Com alguém do meio?
- É
- Disseram alguma coisa diferente do que eu te disse?
- Não.
- Então fugiu de mim, o dia todo. Não podia nem ligar e dizer que
estava bem e que tinha saído, ou deixado um bilhete?
- Me perdoa e ... Me ajude.
- Eu sou a ultima pessoa no mundo que pode ajudá-la, sou a maior
interessada, se lembra? Não vou incomodá-la novamente, não se
preocupe. Tem todo o tempo que quiser pra pensar e resolver sua
vida.
- Não vou mais te ver? Por quê?
- Eu te pedi pra não ultrapassar o limite imposto, você ultrapassou
e pelo que senti, não foi por simples curiosidade, mas você provou
que eu estava certa, você não aceita e se eu receber outra
resposta, como a que você me deu há pouco, não vai prestar. Embora
não gostasse de alguns amigos teus, que te abraçavam e ficavam com
a mão no teu ombro ou cintura, enquanto falavam, jamais disse nada.
Eu até me afastava quando nós encontrávamos qualquer amigo teu. Eu
não mereço e não admito e não sou obrigada a ouvir o que ouvi hoje.
Quando você se resolver, conversaremos.
- Não posso resolver sozinha. Eu preciso da tua companhia.
- Amanhã a gente se vê na academia. Não (Marina tentara abraça-la).
Por favor, vá embora.
- Me desculpe.
Marina não dormiu quase. Foi trabalhar cansada, o dia foi horrível.
À noite esperou Valquiria na esquina de sempre, para irem à
academia. Queria, precisava vê-la. Observar principalmente seus
olhos, que sorriam antes de tudo, depois o rosto e finalmente a
boca. Isto acontecia sempre que a via, mas não desta vez. Havia uma
sombra de tristeza, o que só fez piorar a sua angústia.
- Oi!
- Está melhor?
- Não.
- Pensou a respeito do que você sente e quer?
- É só o que tenho feito.
- E...
- Ainda não cheguei a nenhuma conclusão. O meu nível de aceitação
dos fatos não se fortaleceu. Quero estar com você, mas algo me
impede. Ouço a voz de minha mãe, “com uma mulher? Isto é
indecoroso, é pecado”. Tenho muito medo.
- Vergonha?
- Não sei!
- Olhe pra mim e diga sinceramente o que sente. Pode fazer
isso?
- ...Não!
- Tudo bem. Tenho umas coisas pra resolver. Adeus.
Marina permaneceu ali parada. Queria ir atrás de Valquiria e dizer
o que sentia, mas como, se não admitia pra si, se é tinha medo e
tinha ...vergonha... E vergonha por isso.
Por uma semana não viu mais Valquiria. Observava sempre pela
janela. Tudo apagado, janelas fechadas. Até que um dia ao chegar e
olhar, tudo estava aceso, janelas abertas. Não pensou. Correu.
Quando a porta se abriu, assustou-se.
- Boa noite! Desculpe, mas quem é você?
- Quem quer saber?
- Sou a vizinha...
- Você deve ser Marina.
- Conhece-me?
- Só de ouvir falar?
- Onde está Valquiria?
- Por ordem. Eu sou Solange, a irmã. Estou tomando conta do
apartamento e das coisas mensais, até que ela volte.
- Volte? De onde?
- De algum lugar da África. Estará lá por um ano, com uma missão de
saúde, num desses países cheio de problemas onde a OMS está sempre
ajudando.
- Um ano?
Marina sentiu-se perdida, muito pesada para seus joelhos. Solange a
tratava rispidamente, com desprezo mesmo. Olhou-a e percebeu o
estado que ela ficara. Sentiu pena, ao vê-la apoiar-se.
- Ela não podia!
- Tanto podia que fez.
- Por que não me disse?
- Por que ela diria? Lá ela vai estar bem ocupada, sem tempo para
pensar em você, que não é capaz de gostar dela.
- Não sou capaz?
- Pelo menos uma vez, você disse isto a ela?
- Não.
- Olhe! Agora você vai ter que sair, eu já ia fechar tudo. Vou
passar sempre por aqui, se quiser conversar um outro dia.
- Obrigada. Boa noite.
Dali em diante, sempre que possível, quando Solange vinha, Marina
ia até lá conversar. Perguntava sobre Valquiria, desde a infância,
seus gostos, tudo. Ajudava-a, para tocar nas coisas e lembrar. Às
vezes chorava. Meses depois Solange perguntou.
- Se a ama do jeito que demonstra, por que não ficou com ela?
- Não fui criada pra isto e sim para “honrar e dar
continuidade ao nome da família”. Minha mãe é cheia de
preconceitos, porisso perdeu meu pai. Mas continuam na mesma casa
pra manter as aparências diante da sociedade. Ele já teve outras,
acho até que tem alguém mais importante que minha mãe em sua vida.
Dá força aos filhos, mas não quer brigar pela felicidade dele.
Talvez eu seja como ele. Uma covarde. Um mês depois de ela ter ido
embora, se eu soubesse onde ela está, eu teria ido pra lá. Nunca
tinha sentido tanta solidão, nem tanta falta de alguém, mas se ela
estivesse aqui e eu estivesse vendo-a, conversando, será que eu
teria tomado uma atitude? Não sei. Ela é a pessoa mais gentil, mais
terna que conheci. A voz dela tem uma suavidade impar. Você já viu
como seus olhos sorriem antes de tudo, quando se alegra? Antes
mesmo do rosto, porque ela faz tudo intensamente, com todo o corpo,
mas os olhos demonstram primeiro e ...Desculpe.
- Não se preocupe, só estava ouvindo. Você já viu como fica quando
fala dela? Você brilha. É interessante.
Marina às vezes saia com Solange. Ficaram amigas. O que não sabia,
era que toda a família tinha conhecimento sobre o que conversavam,
menos Valquiria, é claro. Tentou fazer novos amigos, sair um pouco
mais. Alguns dos homens tentavam cantá-la. Até deixou um beijá-la e
teve certeza que não queria nenhum homem em sua vida. Não tinha o
sabor da boca de Valquiria. Saia com Simone e Claudia, pois podia
falar abertamente com elas. Num certo bar, até foi dançar com
algumas mulheres. Beijou uma, mas não tinha a mesma textura, a
mesma despreocupação, a mesma espontaneidade.
- Daí beijei uma garota linda.
- Sério. Foi igual?
- Nem de longe. Sabe Solange, acho que descobri porque sempre
faltava algo pra eu ser feliz num relacionamento. Sou mulher de uma
pessoa só. Da pessoa por quem sentisse todo o amor possível de se
sentir. Aquela especial, de toque divino. E eu a deixei ir
embora.
- Fica fria. Tenho que passar na casa de minha mãe, antes de irmos
para o cinema, se importa?
- Não, mas não íamos jantar?
- A gente come alguma coisa, é rápido. Só vou deixar os resultados
dos exames que peguei. Amanhã cedo ela vai ao médico pra
levá-los.
- Ela está bem?
- Está. É rotina.
Ao chegarem na casa, Solange desceu e trancou a porta do
carro.
- Vamos!
- Não, eu espero aqui.
- Deixa de frescura. Vem.
Entraram. Havia um dos irmãos na sala. A mãe estava na
cozinha.
- Oi Pedro. Ce tá bom?
- Tranqüilo.
- Esta é Mari, uma amiga minha.
- E aí, tudo bem? Sente-se.
- Tudo, obrigada.
- Mãe, teus exames para amanhã estão aqui. Beijinho. Estamos indo,
vamos jantar e depois cinema. Qualquer coisa me liga. Esta é
Mari.
Tinha ido até a cozinha e dona Laura voltara com ela.
- Como vão jantar? Gastar à toa pra quê? Tem comida suficiente.
Jantem primeiro.
- Mas mãe...
- Sem discussão. Arrume a mesa. Pedro vê se a moça quer alguma
coisa.
Marina ficou sem graça. Não tinha o hábito de comer na casa de
alguém, principalmente na 1ª vez. Ainda mais depois que Solange lhe
contara que a família a odiava, por ter deixado Valquiria ir
embora.
- Não quero nada, obrigada.
- Vem ver as fotos dos meus filhos e netos. Vem cá
Havia um móvel e em cima dele várias fotos de adultos e crianças,
emolduradas. Olhava distraidamente. Cinco eram de crianças.
- Belas crianças. Todos são seus netos?
- Todos.
Então viu a foto dela. Estava sorrindo, curvada, com os braços
abertos como aguardando alguém entre eles. Marina deixou de ver as
outras fotos, seus olhos marejaram, sua mão se estendeu e pegou o
porta-retrato. A outra mão automaticamente acariciava a foto.
Piscou e as lágrimas desceram.
- É ela, não é Solange?
- É mãe. Acho melhor a gente ir. Marina!
Voltou à realidade. Olhou para a senhora. Estendeu o braço para
entregar-lhe o retrato.
- Desculpe. Vamos Solange.
- É, você tem razão. Ela ama sua irmã pra valer. Quiqui se
precipitou em nos deixar, mesmo. Sentem-se pra jantar.
- Eu sei que a senhora não gosta de mim, eu entendo. Portanto é
melhor a gente ir.
- Eu não gostava, no começo, mas depois de tudo que tem conversado
com Solange, e a gente sabe que tu gosta de Quiqui e que tem
sofrido com a falta dela. Agora, não discuta e sente-se.
- Solange, você podia ter me dito que tua família não me odiava
mais. E agora? Você armou pra mim?
- Não, eu juro.
Durante o jantar, conversaram bastante. Logo Marina estava à
vontade. Só sentia por sua família não ser assim. Perderam a hora
pro cinema. Solange levou-a pra casa. Soube que Quiqui, era como
Pedro a chamava quando pequenos.
- Não quer mesmo que eu fale com Valquiria, quando ela ligar?
- Não, não quero. Prefiro que ela resolva um dia se quer falar
comigo.
- Ela não sabe o que você sente.
- Ela não sabe que decisão eu tomaria agora, mas o que eu sinto,
ela sempre soube.
- Você é que sabe.
Algum tempo depois, Solange ligou no escritório, coisa que não
costumava fazer. Era uma 5ª f.
- O que foi, algum problema?
- Tá na hora de você fazer alguma coisa. Valquiria ligou, como já
ultrapassou dez meses e já vai acabar seu tempo de contrato, tem
que optar, se fica ou volta. Está pensando em mais um ano. (breve
silêncio). Marina você está aí?
- Não vou agüentar
Solange. Vou pensar. Obrigada.
No sábado foi almoçar com sua família. Observou-os. Tudo muito
educado e muito vazio. Conversara com seu pai e confirmara que ele
realmente há alguns anos tinha outra mulher e que tinha uma filha
de 10 anos com ela. Marina era a única da família que sabia e que
as conhecera. Gostava muito da menina, e simpatizara com a mulher
que realmente amava seu pai. Sua mãe vivia em um mundo à parte. Os
irmãos, um casal, só se interessavam por coisas que lhes dessem
prazer ou lucro. O irmão estava no 2º casamento; a irmã,
divorciada, tinha seus namorados. Dois filhos cada. Não estavam
presentes. Resolveu dar um basta em tanta frivolidade.
- Sabe mãe! Você sempre nos pregou a importância da família, do
casamento, do bom partido. Sempre “arranjou” namorado à
altura para seus filhos e olhe só, nenhum está realizado
emocionalmente, nenhum é feliz. Baseada nas suas idéias esperei o
homem perfeito, que me faria feliz, seria perfeito na cama e
cheguei a pensar que era frígida, nas poucas vezes que fui pra cama
com alguém. Aí conheci alguém especialíssimo. Alguém que cujos
olhos sorriam assim que me via, só por estar me vendo. Alguém
gentil, que faria qualquer coisa só pra me ver sorrir, me sentir
bem, sem cobranças. Alguém que é insuportável não ver, que dói
demais sua ausência. Alguém que faz meu sexo doer e querer ser
tocado, num simples afagar. Seu simples tom de voz deixa claro se
quer algo mais que uma conversa. Que tem gestos mansos, é
inteligente, capaz. E eu tive medo do que você ia pensar, do que
podia dizer. Tive vergonha dela não estar à altura dos seus
delírios e por covardia a deixei ir. Simplesmente por ser
mulher.
- O quê? Uma mulher? Você ficou louca? Nem em sonho. Filho meu é
normal, não é nenhum depravado ou louco.
- Pare Isabel. Ela tem razão. Faz tempo que não somos uma família.
Sabia que ela estava sofrendo, que não estava bem e não tomei uma
atitude digna de um pai nossos filhos estão infelizes, nós estamos
infelizes. Está na hora. De colocarmos a locomotiva, e todos nós
seguirmos, os trilhos adequados a cada um.
- Que barato! Irmãzinha, você é gay e assumiu isto no templo da
hipocrisia. Parabéns. Seja feliz.
- Vocês beberam demais, foi isso?
- Não mãe, eu não bebo, lembra-se? Eu vou indo. Boa tarde a
todos.
Saiu. Seu estomago não agüentava mais tanta falsidade. Assim que
entrou em casa, apanhou o telefone e discou o nº do telefone de
Valquiria.
- Oi. Sou eu. Sua irmã disse que você pretende ficar mais um ano
por aí, não sei onde. Se me esquartejassem viva, seria uma morte
menos dolorida. Tua falta me mata aos poucos, todos os dias. Mais
uma no e não restará mais nada de mim. Durmo pouco, choro muito,
como pouco, te sonho muito, mesmo acordada. Se vou a algum lugar
que já estive com você, fico lembrando, se não estive lá com você,
fico imaginando como seria. Filmes, músicas. Tudo me faz pensar
você. Desculpe. Não. Perdoe minha covardia. Tudo o que tenho de
palpável de você comigo, é uma foto que tua mãe me deu e aquela
almofada que sempre segurava enquanto falava. Durmo com elas, o
pouco consigo. Preciso te ver, te ouvir. Fala comigo, nem que for
pra dizer adeus, ou se ainda sente algo por mim, volta. Valquiria,
eu te amo, como nunca pensei que fosse possível.
Solange veio cuidar do apartamento e como sempre foi ouvir os
recados. Chorou e desta vez, não apagou. Ligou para a África.
- Oi maninha!
- Solange? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Eu sei que não é dia de ligar, mas tenho uma amiga, muito
querida pela família e... Você já fez a opção?
- Não. Ainda tenho uma semana para dar a resposta.
- Então essa minha amiga, ligou pra tua casa e deixou uma mensagem
muito importante. Antes de tomar uma decisão, gostaria que a
ouvisse. Pode ser? Por favor.
- Tá bom. Hoje à noite eu vou ouvi-la.
- Obrigada. Beijos.
Por volta das 22h00min h., o telefone de Solange tocou.
- Alô!
- Então enquanto eu me mato de trabalhar, você fica de fofoquinha e
amizade com meus desafetos.
- Pois é. Ouviu tudo?
- Você a levou na casa de mamãe?
- Levei. Depois de ouvir cada coisa a teu respeito! Se eu gostasse
de mulher, eu teria me apaixonado. Quando você voltar te conto
tudo. E aí?
- Solange?
- Fala.
- Obrigada. Você a deixou levar minha almofada!
- Você está chorando?
- Obrigada. Tchau.
Quando Solange, na outra semana veio ao apartamento, Marina foi
vê-la.
- Ela já escolheu?
- Agora não nos diz mais nada.
- Ela liga aqui pra ver os recados?
- Não sei. Acho que não.
Quase dois meses depois, Solange recebeu um telefonema, cedo.
- Pode me pegar no aeroporto?
- Quando?
- Às 15h30min h. estarei chegando.
- Aviso alguém?
- Ninguém, por favor.
- Estarei lá.
Chegou. Foi para a casa da mãe, conversaram um pouco, prometeu
voltar no dia seguinte e foi pra casa. Tomou banho e saiu.
Marina havia acabado de sair do banho quando tocaram a campainha.
Pensou ser a vizinha, já que o porteiro não avisou. Colocou o
roupão e foi abrir a porta. Assustou-se. Deu alguns passos para
trás, o coração lhe parecia, querer sair pela boca, queria rir e
chorar ao mesmo tempo. De repente ficou muito pesada para os
joelhos, que começaram a fraquejar. Valquiria entrou, fechou a
porta e segurou-a. Marina passou as mãos em seu rosto.
- Seus olhos... Estão... Sorrindo.
Valquiria ajudou-a a chegar ao sofá. Tirou o vestido que vestia,
sem mais nada. Abriu o roupão de Marina e olhou-a
demoradamente.
- Você emagreceu, mas continua linda pra mim.
Beijaram-se, suavemente a princípio, depois com sofreguidão. Foram
para o quarto. Antes de chegarem à cama, Marina foi segura pelos
ombros, mãos seguraram seu roupão e o tiraram lentamente. Foi
abraçada por trás, ao dissolver o abraço, mãos percorreram seu
corpo, pela frente, enquanto corpo e boca o percorriam por trás,
explorando, conferindo. Sentiu-se livre, em pleno vôo. Virou-se e
colou-se inteira naquele corpo amado. Caíram na cama, sem
interromper as carícias. Mãos percorrendo todos os poros. Línguas
beijando, lambendo, entrando. Enquanto a língua ia entre os pelos,
da frente para trás e voltava, sugando as coxas, dedos cuidavam
daquela cavidade misteriosa, num frenético ir e vir e quando
voltavam para o restante do corpo, a reciprocidade em seu próprio
corpo, era altamente retribuída.
Horas depois, Marina estava deitada sobre o corpo de Valquiria,
ambas completas naquele vazio repleto de prazer, naquele isolamento
completo do mundo, que só os verdadeiros amantes conhecem.
- Acho que você gosta desta posição.
- Estou pesada?
- Tanto quanto devia pesar.
Abraçou-a.
- Só quis dizer que você gosta de ficar assim, não que deveria
sair. Sonhei tantas vezes com esta situação. Que saudade!
- Quem inventou esta palavra, estava inspirado. Muita coisa já foi
dita a seu respeito, do quão sofrida ela pode ser, mas ninguém,
nunca conseguiu descrevê-la à altura. A gente realmente pode morrer
de saudade, se souber que não haverá volta, sabia? (encarou-a).
Nunca mais faça isso comigo. Não me abandone de novo.
- Nunca mais.
- Não queria você nesta cama. Se soubesse que viria, teria trocado.
Pensei em fazer isto várias vezes, mas não tinha motivo real.
- A privacidade?
- Não. Não trazia namorados pra casa por privacidade. Toda a
mobília aqui, foi minha mãe que escolheu. Lembra? Eu te disse que
veio assim como está, não tem nada de mim nesta casa, ao contrário
da sua, que é inteira você. Entendeu?
- Entendi. Durma um pouco que você tem que trabalhar. Amanhã é 5ª
f. moça. Acho que estou com fome.
- Você viajou sem parar, sem descanso decente, deve estar exausta.
Vem, vamos comer alguma coisa, depois, dormir.
- Enquanto você prepara o que comer, troco os lençóis. Onde
estão?
Apanhou dois lençóis enquanto Valquiria tirava os da cama.
Colocaram rapidamente e foram pra cozinha. Marina ia colocar o
roupão.
- Não coloque não. Deixa eu te rememorizar.
Comeram salada e torradas e foram dormir. Parecia que tinha acabado
de fechar os olhos e o relógio acordou-a com música. Desligou-o
rápido para não acordar Valquiria, mas ao soltar sua mão e esta
deslizar por seu seio, soube que ela acordara.
- Bom dia. Vou deixar uma chave em cima da mesa da cozinha. Durma
bem.
- Vem dar beijinho antes de sair?
- Venho.
Voltou para se despedir. Ficou ali parada, olhando-a dormir por uns
instantes.
- Que foi?
- Nada. Só vim dizer até mais tarde.
- Hummm...
- Não perguntou o que eu decidi. Já sabe?
- Se não tivesse se decidido, não me deixaria aquela
mensagem.
- Verificava sempre?
- Nunca. Solange pediu pra eu ouvir a mensagem, que uma amiga dela
deixara pra mim.
- Tenho que agradecê-la. Tchau.
- Tenha um bom dia. Posso te ligar?
- Sempre.
Pelas 14h00min h. ligou.
- Atrapalho?
- Nunca.
- Hum, hum! Sempre, nunca. Que progresso!
- Você provocou isso.
- É gostoso de ouvir, dito assim num tom tão suave. Estou indo
conversar com mamãe. Você me apanha lá ou espera em casa?
- Te apanho lá. Valquiria!
- Oi.
- Nada.
- Eu sei. Cada célula minha sente o mesmo. Beijos.
O pai de Marina veio à sua sala para conversar um pouco.
- Filha, você me deu o que pensar naquele almoço. Criei vergonha.
Resolvi ser feliz e saí de casa. Fui para um lar, um lugar onde
você e seja lá quem for que você goste, serão bem-vindas. Sua mãe
marcou um jantar “em família” pra sábado às 19h00min
h., para contar aos filhos. Vai poder ir?
- Parabéns pai. Fico contente por vocês três. Quando for ver minha
irmãzinha, vou levar alguém. Ela voltou pai.
- Porisso você está tão diferente hoje!
- É. Estou feliz. No sábado, aproveito para informar dona
Helô.
- Estarei ao seu lado filha.
Por volta das 18h15min h., chegou à casa de dona Laura. Assim que
entrou, sentiu o clima festivo, toda a família estava lá. A
matriarca abraçou-a Estava feliz da vida.
- Oi filha. Obrigada por trazê-la de volta.
Aproximou-se de Valquiria, beijou-a no rosto, sentindo uma ternura
imensa. Valquiria fez com que se sentasse ao seu lado e ficou
segurando-lhe a mão, bem à vontade. Uns minutos depois, deixou de
se preocupar, percebeu que a única que se importava era ela. Sorriu
e resolveu curtir. Afinal era a primeira vez que estavam juntas
ali.
Voltaram pra casa, tarde da noite e mesmo assim sob protesto,
prometendo retornar no final de semana. No caminho de volta,
contou-lhe sobre o jantar do sábado.
- Quer que eu vá junto?
- De jeito nenhum. Não se leva pássaro à jaula de cobra. Jamais a
exporia de tal forma e eu vou voltar logo. Não é jantar como na
casa de dona Laura. Fica comigo hoje?
- Não prefere ficar em casa?
- Prefiro, mas tenho que trabalhar amanhã cedo.
- Então, ficamos lá.
Acordou de madrugada agitada, sonhou que estava só, estava
chorando. Foi abraçada fortemente.
- Durma. Não vou a lugar nenhum.
Aconchegou-se e dormiu até ser acordada pelo relógio.
Passaram a manhã de sábado juntas. Tomaram café na padaria, com pão
quente.
- Vim aqui algumas vezes, durante este ano.
- Tomar este café?
- É, mas perdeu o sabor enquanto você não estava; só estava na
lembrança. Hoje voltou a ter um sabor delicioso.
À noite Valquiria foi pra casa da mãe e Marina foi ao malfadado
jantar. Tentaria com o pai, pegar uns dias de férias, pois
Valquiria a partir de 2ª f. teria um mês para descansar, antes de
voltar a trabalhar no hospital. Falou com ele antes do jantar.
Concordou de imediato. Ao sentarem-se à mesa ele começou a
falar.
- Acho que vocês não conhecem bem seus antepassados crianças. Sabem
que tudo é hereditário, precisam conhecer bem o passado, para se
prepararem para eventualidades. Sabem sua tia-avó Carlota?
- A professora que vivia com outra professora? Perguntou
Lídia.
- Essa mesmo filha. Pois é, literalmente viviam juntas. Apesar de
todas as pressões e terem que manter a maior discrição, conseguiram
ser felizes. Quando minha tia faleceu a outra não ficou muito tempo
viva. Viveram juntas por 42 anos.
- Isso é lindo pai. Enfrentar o mundo por tanto tempo, numa época
daquela!
- Deve ter esses casos bem antes nas famílias, homens e
mulheres.
- Na minha não.
- Escondiam isso sim!
- Por que veio com essa conversa? O assunto aqui é outro. Esse
jantar é para informar nossos filhos que você saiu de casa.
- Há tempos eu não “estou” nesta casa. Crianças estamos
nos divorciando. Eu resolvi ser feliz com quem gosta de mim e não
ser mais um faz de conta.
- Até que enfim meu velho.
- Bom pra você pai. Só espero que não se afaste da gente
agora.
- Não, vocês sempre serão meus filhos.
- Não vai dizer nada Marina?
- O que mãe? Que ele deveria ter feito isso antes?
- Pelo jeito ninguém está do meu lado.
- Helô, não há lados nisso. Todos somos adultos, só acabamos com
uma farsa.
- Bom, antes que comece a discussão e esse jantar faça mal a todos,
vou dizer uma coisa mãe. Lembra-se do que falei outro dia? Pois é.
Ela voltou e vou estar pelo resto da minha vida com ela.
- Só por cima do meu cadáver. Naquele apartamento não vai entrar
vagabunda nenhuma.
- Helô, nós demos pra ela. Ela faz o que quiser.
- Não. É nosso, é patrimônio da família, até os móveis. Era pra ela
morar, só ficaria com ele se casasse com alguém à nossa
altura.
- Por favor, pai. Não discuta, eu saio. Nunca senti que era minha
casa.
- E pode procurar um emprego também.
- Aí não. O escritório é problema meu. Lá você não se mete.
Principalmente se quiser uma pensão no divórcio, já que os filhos
são todos adultos.
- Obrigada pai. Até segunda. Maninhos, tchau.
- Quando vou conhecê-la?
- Se for com respeito, quando quiser Lídia.
- Também estou indo. Boa noite crianças. Vou comer onde não me faça
mal.
O telefone de dona Laura tocou. Atenderam.
- Quiqui é pra você. Parece que o jantar já acabou.
- Oi amor. Tá tudo bem?
- Ótimo. Só tem um probleminha.
- Qual?
- Pode me alojar por uns tempos? Só até eu me organizar. Dona Helô
cessou o empréstimo do apartamento.
- Vem pra cá e amanhã a gente faz a mudança, com uma
condição.
- Qual? Dividiremos as despesas, é claro.
- É claro. Você consegue dormir bem, longe de mim?
- Não mais.
- Então a condição é esta. Cafuné as noites, pelo resto de nossas
vidas, pra eu dormir. E nada de se organizar fora de casa.
Na 2ª f., após o trabalho, foi até a casa da mãe pra entregar-lhe
as chaves do apartamento e as contas pagas do mês.
- Se fizer isto, não precisa voltar aqui. Não terei mais você como
filha.
- Eu já fiz. Tem mãe melhor que você por aí. E eu estou indo pra
casa finalmente. Adeus dona Helô. Querer ou não ter filhos, é uma
escolha sua. Que tipo de filho, é escolha dele.
FIM

